História Resumida da Biblioteca Octavio Tarquinio de Sousa / Lucia Miguel Pereira

por Antônio Gabriel de Paula Fonseca Jr.

Não posso discorrer sobre a biblioteca formada por Octavio Tarquínio de Sousa e Lucia Miguel Pereira sem falar sobre os donos, pessoas a quem tanto devo e a quem tanto amei. Estou, no entanto, muito longe de ensaiar suas biografias, mesmo porque me faltam engenho e arte para a tarefa. Enfatizo apenas que me é impossível desacoplar a história dessa biblioteca do caráter e do dia-a-dia de seus donos, a menos que me restrinja a uma áspera descrição estatística do número de autores, títulos, edições, línguas e demais dados informativos e técnicos.

Essa biblioteca nasceu há muito tempo, no início do século passado. Como rios caudalosos, começa em pequenas nascentes e afluentes. O próprio Octavio, num de seus primeiros livros, Monólogo das cousas, publicado em 1914, já fala de sua primeira biblioteca, organizada aos oito anos de idade. Todavia, em “Monólogo de um velho livro”, um dos textos desse livro, adverte:

Mas não cuides descobrir nos livros a razão da vida e uma maneira de ser feliz. A filosofia que eles sugerem é toda negativa: é a da renúncia deliberada ao que a vida tem de mais arriscado e difícil e por isso mesmo de mais belo e humano. Assenta a tua ventura em bases mais sólidas: o carinho de uma doce criatura que seja bela e seja boa. Ao teu encontro virá, então, o que jamais depararia sozinho.

Um decisivo afluente veio de Lucia, que desde cedo se interessou pelas letras. Em pouco tempo, dominava com profundidade a literatura tanto francesa quanto inglesa. Conhecia igualmente bem o idioma alemão. Culta e inteligente, aluna do Colégio Sion nas Águas Férreas, editou em 1927 com duas outras Lucias, a Magalhães e a Lobo, uma publicação literária, a Revista Elo, com a qual, apesar da circulação limitadíssima, foi surpreendida pela transcrição de alguns de seus artigos em O Jornal, diário de grande circulação na época. O livro era então o principal transmissor cultural. Nem se pensava em televisão, fax, computador e, sobretudo, internet. Tudo era o livro.

Com o passar do tempo, os dois afluentes se foram encorpando, até que, na década de 1930, Lucia e Octavio se casaram e seus livros principiaram o que se tornaria o conjunto hoje pertencente à Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro.

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Eu era um menino de oito anos de idade quando fui adotado por meus avós em 1946. Acompanhei, portanto, a meninice, a mocidade e a idade adulta da biblioteca que eles formaram. Morávamos numa casa na rua Inglês de Souza, onde comecei a apreciar o carinho dispensado aos livros. Já eram muitos e espalhados em várias estantes por todos os cômodos da casa.

Em 1948, mudamo-nos da casa da Freguesia da Gávea, hoje Jardim Botânico, para um apartamento no Parque Guinle, nas Laranjeiras. Sua maior sala foi destinada à biblioteca. Apesar de seus 12 metros de comprimento por 5 metros de largura e pé direito de 3 metros, foi necessário projetar um conjunto de estantes com uma carreira na frente e outra atrás, sendo esta ligeiramente elevada em relação à primeira, de forma que todos os livros pudessem ser vistos por seus usuários.

Meus avós chamaram um marceneiro, cujo nome não esqueci: “seu” Roque Debonis, que fez um belo trabalho. Construiu o conjunto de estantes em cedro encerado, integrado à mesa de trabalho usada por Lucia, na qual ela frequentemente datilografava em sua velha Remington, mais tarde substituída por uma Olivetti, que ainda se encontra no acervo da biblioteca. Estantes de linhas simples, retas e funcionais, como o prédio de Lúcio Costa, hoje tombado e tão atual.

Nesse apartamento, com Octavio já aposentado como ministro do Tribunal de Contas, as manhãs eram dedicadas à leitura de livros e aos muitos jornais existentes: Correio da Manhã, Diário Carioca, Diário de Notícias, O Jornal e o então vespertino O Globo. Dia após dia, trabalhavam de maneira metódica na sala da biblioteca até as cinco horas da tarde, quando invariavelmente tomavam um chá, quase sempre do Ceilão (Sri Lanka).

Tal rotina só se interrompia quando iam à editora José Olympio, onde se reuniam políticos a falar de literatura e literatos a falar de política. O papo era interessantíssimo e a nós, os meninos – Geraldo, filho de José Olympio, e eu – cabia escutar e, quando permitido, rir.

Às noites, recebiam ou visitavam amigos, quase sempre intelectuais cujas obras certamente fazem parte da biblioteca: muitas vezes, exemplares de luxo, fora do mercado e com dedicatória. É grande o esforço para, depois de tanto tempo, lembrar das pessoas que transitavam em nossa casa. Peço perdão àqueles cujos nomes me esqueci, e que podem ter estado com Américo Lacombe, Afonso Arinos de Melo Franco, Alceu de Amoroso Lima, Álvaro Lins, Américo Facó, Antenor Nascentes, Antonio Candido, Astrojildo Pereira, Augusto Frederico Schmidt, Aurélio Buarque de Holanda, Cândido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Lacerda, Cassiano Ricardo, Dario de Almeida Magalhães, Edmundo da Luz Pinto, Francisco de Assis Barbosa, Gastão Cruls, Hélio Lobo, Heloísa Alberto Torres, José Américo, José Honório Rodrigues, José Lins do Rego, José Maria Bello, José Olympio, Luis Jardim, Manuel Bandeira, Marques Rebelo, Murilo Mendes, Paulo Inglez de Sousa, Prudente de Moraes Neto, Rachel de Queiroz, Roberto Alvim Correa, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Rubem Braga, Santiago Dantas, Sergio Buarque de Holanda, Vinicius de Moraes e Vitorino Nemésio.

A biblioteca Octavio Tarquínio de Souza e Lucia Miguel Pereira é, portanto, o produto indireto de uma vida de trabalho e muitos amigos. Cerca de um quarto dos livros possui dedicatória a Lucia, a Octavio ou aos dois. Nada de livros a metro, como costumavam brincar. Neles, não havia nem mesmo o espírito dos colecionadores. Os livros e eles formavam uma união quase simbiótica. Lucia e Octavio não tinham nenhuma catalogação, mas sabiam onde cada um deles estava.

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As dedicatórias nos livros da biblioteca de Lucia e Octavio formam um capítulo à parte. Talvez no futuro, com a biblioteca em sua nova morada, alguém tenha a paciência de fazer um ensaio sobre as centenas de lindas, curiosas, inteligentes e espirituosas dedicatórias que tanto valorizam o acervo.

Ofereço três como aperitivos, na esperança de que alguém se entusiasme e desenvolva o assunto. A primeira delas é de Monteiro Lobato para Lucia Miguel Pereira. O pai de Lucia era um conceituado professor de medicina, o médico Miguel Pereira, que disse a célebre frase:

“O Brasil é um vasto hospital”. Pegando o mote, Monteiro Lobato, em 5 de fevereiro de 1948, ofereceu suas obras completas acompanhadas das seguintes palavras:

O Brasil é um vasto hospital com um lindo jardim na frente. Nesse jardim, uma flor de inteligência alta resplende: Lucia Miguel Pereira.
Monteiro Lobato
Presta homenagem a esta flor alta com a oferta deste bloco de livros.

A segunda dedicatória escolhida é de Manuel Bandeira. Como se sabe, Lucia fez, em 1943, um excelente trabalho biográfico sobre Gonçalves Dias. Mais tarde, em 1952, Manuel Bandeira publicou o que chamou de esboço biográfico do poeta maranhense, assim oferecido a ela e a Octavio:

A Lucia, de cujo opulento atacado tirei este modesto varejo.
A Lucia e Octavio, tão queridos de
Manuel.

A terceira é de Carlos Drummond de Andrade, que dedicou a Lucia e Octavio seu livro Claro enigma, publicado no mesmo ano de 1952 pela editora José Olympio, com nova e inédita poesia:

Vai meu livro de mansinho,
ao rumo de Laranjeiras;
chegando a Gago Coutinho,
entre as árvores faceiras,
procura nos altos planos
a morada amiga e clara
de dois ilustres romanos
– Lucia e Octavio –, gente rara,
gente de gosto mais fino
e do melhor coração.
Não queiras outro destino
nem busques outra mansão.

A Lucia e Tarquínio,
afetuosamente,

Carlos Drummond
Rio, janeiro 1952.

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Lembro-me muito bem de que a biblioteca foi feita com muito amor. Lucia e Octavio formavam um casal perfeito, muita inteligência, grandes em espírito, total entendimento mútuo e amor insuperável. Jamais vi, em todos os anos de nossa convivência, a menor discordância, a menor discussão, a menor rusga. Quando isso acontecia, era comigo. Passeavam todos os dias de mãos dadas pelo jardim do apartamento. Éramos uma família feliz, embora vovô dissesse que a felicidade vinha em jorros e nunca era permanente, a não ser para l’imbecil heureux. Na dedicatória que fez para ela por ocasião da segunda edição de sua História dos Fundadores do Império do Brasil, em cujos exemplares se lê “A LUCIA, companheira perfeita”, pode-se ter ideia de como se sentiam lado a lado:

meu exemplo, meu ideal de felicidade realizado, a mais pura, a melhor pessoa que jamais conheci, estes livros escritos antes de tudo para a leitora que primeiro os leu, com o coração ternamente agradecido de

Octávio
Rio, 19 de agosto 1958.

Vivemos na cobertura do Parque Guinle até o dia 22 de dezembro de 1959, quando o Viscount da VASP em que eles voltavam de São Paulo se chocou com um avião de treinamento da Força Aérea Brasileira e todos morreram. Imensa tragédia que, antes da hora, ceifou a vida do grande casal de intelectuais da época. O chão sumiu sob meus pés.

Octavio e Lucia não eram ricos. Viviam da aposentadoria de Octavio, ex-ministro e presidente do Tribunal de Contas da União. A literatura começava a fazer parte da receita. Na época, todavia, uma boa edição era de três mil exemplares, podendo-se concluir que rendia mais prazer do que pecúnia. Por serem de retidão inabalável, não era possível, como não o é até hoje, que um funcionário público acumulasse fortuna. O apartamento onde morávamos não estava pago. Só liquidei a dívida cerca de cinco anos após a morte dos dois.

***

Nos primeiros dias, logo após perdê-los, me via desorientado, olhando para a biblioteca e lembrando-me das lições que recebera:

Se eu puder te incutir a convicção de que a vida só é útil, só é digna, só é feliz quando dedicada ao cumprimento de um dever, não me terei esforçado em vão para educar-te.
Lucia Miguel Pereira

Em pouco tempo, tracei a meta teimosa de manter a biblioteca una e intacta, custasse o que fosse preciso. Uma obrigação que me impus em nome daqueles a quem tanto devia. Andei pelos sebos, comprando alguns exemplares da Brasiliana que faltavam, e atualizei a Revista do Patrimônio Histórico. Com ajuda de Francisco de Assis Barbosa, providenciei uma ficha de catalogação para cada livro, em que se indicava sua posição cartesiana nas estantes. Não existia computador, era tudo na munheca.

De 1959 a 1963, a biblioteca foi limpa, tratada, cuidada… Em 1964, já formado em engenharia, comecei a me permitir alguns gastos. Reformei a sala da biblioteca, fechando hermeticamente a parede frontal, a única com janelões de abrir. Lembro de meu avô, em dias de muito vento, dizer que parecíamos estar a bordo de um navio. Deixei apenas duas janelas fixas de vidro Blindex, que permitiam a iluminação, mas evitavam a poeira. Porta trancada, a fim de garantir vedação total e impedir infestações de traças, cupins e outros bichos. Com alguma frequência, cada livro era retirado da estante, minuciosamente inspecionado e limpo da pouca poeira que, apesar do fechamento quase perfeito da sala, sempre se revela.

Durante a juventude, foi duro resistir à tentação de fazer dinheiro com a venda da biblioteca. Desde 1960, recebi de alguns sebos inúmeras propostas, por vezes insistentes e agressivas. Fui procurado por duas universidades norte-americanas, mas, apesar do aceno dos dólares, fiquei firme em meu propósito. Fui igualmente sondado por uma universidade de São Paulo, mas confesso que não me lembro mais qual, pois nem quis receber a proposta.

A partir de certo momento, a vida melhorou e perdi o medo das tentações pecuniárias ligadas aos livros de Octavio Tarquínio de Sousa e Lucia Miguel Pereira. Quis o destino que a biblioteca deles, cuja formação inicial se confunde com o início do século XX, pois Octavio nasceu em 1889 e Lucia em 1901, fosse conservada praticamente no estado em que se encontrava em 1959. Mesmas estantes, mesmas obras, mesmos móveis, mesmo endereço.

Ao completar setenta anos, passei a procurar algum local em que ela pudesse ser realocada. “Après moi, le déluge”… Não pensei em fazer dinheiro, e sim encontrar instituição que dispusesse de uma sala exclusiva, com configuração semelhante à original. Para lá, poderia transpor os livros, manuscritos e fotografias de amigos e autores de várias obras existentes na biblioteca. Deveria ser entidade de Estado ou eclesiástica, uma vez que meu interesse era garantir a conservação do conjunto histórico e abri-lo ao público.

Já na era do computador, transformei as velhas fichas, feitas há mais de quarenta anos, em uma planilha. Em seguida, fez-se uma conferência geral do acervo e da posição das obras nas estantes. Achava que essa planilha seria de grande auxílio para uma nova e moderna catalogação, a cargo daqueles que passassem a gerenciar a biblioteca.

Em algumas oportunidades, tentei doar a biblioteca Octavio Tarquínio de Sousa e Lucia Miguel Pereira a instituições do Rio de Janeiro, onde achava que ela deveria permanecer. Algumas, a princípio, se interessaram em recebê-la, porém a doação, por razões que não me cabe aqui discorrer, acabou não se concretizando. E isso sem nada pedir em troca e oferecendo-me para assumir todos os custos da mudança da biblioteca para sua nova sede.

Finalmente, em 2010, consegui realizar a doação da biblioteca para a Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro, onde espero que as obras de Lucia, Octavio e de tantos outros escritores que compõem a biblioteca ajudem aos estudiosos e pesquisadores que a ela venham recorrer. E que o destino continue a…

Antonio Gabriel de Paula Fonseca Jr.